Como identifico se tenho algum problema?
O guarda-roupa da técnica
contábil Cláudia Bassan é um reduto de calças, blusas, bolsas e
sapatos. Só jeans ela tem mais de 20. Alguns nem saíram da sacola da
loja. "Já comprei dez peças em menos de uma hora, sem experimentar",
conta. Isso estava longe de ser um sonho de consumo — para Cláudia
era um pesadelo. "Cheguei a fazer nove empréstimos em um mês porque
meu salário não dava nem para o cheiro", lembra-se. Além de acumular
dívidas, ela ficava deprimida por ter adquirido tanta coisa sem
precisar." Eu me sentia um lixo e escondia tudo no fundo do
guarda-roupa para esquecer o meu descontrole. Tinha até mesmo uma
espécie de ressaca, como se tivesse bebido muito." Hoje, aos 28
anos, Cláudia faz terapia para resolver sua compulsão.
Quais são os Sintomas clássicos dessa doença?
O neomania é como os
especialistas se referem ao impulso exagerado de comprar itens
desnecessários. "É uma perda de controle que leva fatalmente a
sérias dificuldades financeiras", resume a psicóloga Denise Gimenez
Ramos, coordenadora da pós-graduação em Psicologia Clínica da
Pontifícia Universidade Católica, a PUC de São Paulo. Segundo o
neuropsicólogo Daniel Fuentes, do Hospital das Clínicas paulistano,
hoje se discute se ela seria uma doença propriamente dita ou um
sintoma de outras patologias que, coincidência ou não, também
aparecem em seus portadores. "Muitos compradores compulsivos têm
distúrbios de humor como pano de fundo. Ansiedade excessiva e
depressão são alguns deles", diz.
Estima-se que 3% da população brasileira sofra de compulsão por
compras — e nove em cada dez vítimas são mulheres. "A maioria não
trabalha", nota Denise Ramos. Por isso, acredita-se que fatores
socioculturais tenham certo peso. "Em geral a mulher é vaidosa e
gosta de receber coisas do homem. E ele, por sua vez, gosta de ser o
provedor do casal", observa a psicóloga Célia Horta. Claro,
situações assim não são regra — mas, se aparecem, funcionam como
estopim para quem tende a ser compulsivo.
Segundo Daniel Fuentes, alguns estudos apontam que os compradores
compulsivos teriam um funcionamento diferenciado em determinada área
cerebral — o lobo pré-frontal — envolvida na nossa capacidade de
planejar e gerenciar ações. "Essa disfunção faria com que as pessoas
tomassem atitudes imediatistas", diz o neuropsicólogo. Isso
explicaria por que um indivíduo usa as compras para aliviar um
problema emocional em vez de tentar resolvê-lo a médio prazo.
Existe um tratamento ou uma receita para curar essa dependência?
O psiquiatra André
Malbergier, professor da Universidade de São Paulo, compara essa
compulsão à dependência de drogas, em que a vítima oscila entre o
prazer e um mal-estar torturante. "A interação com o vendedor é
sempre estimulante para o compulsivo. Quando sai da loja, porém, ele
entra em um quadro depressivo, só minimizado se consumir de novo",
diz ele.
Para quebrar o ciclo vicioso da oneomania podem ser usados remédios,
como antidepressivos e ansiolíticos, conforme o quadro. Mas a
solução passa inevitavelmente pela psicoterapia. Afinal, o
consumidor precisa aprender a resolver seus conflitos em vez de
tentar compensá- los em uma ida ao shopping.
MECANISMO DE RECOMPENSA
Segundo o psiquiatra André Malbergier, quando o compulsivo faz
compras seu cérebro libera mais dopamina do que o normal e essa
substância provoca uma sensação de euforia. Mas sua ação se esgota
com rapidez. "Daí a pessoa fica apática, desanimada, desestimulada.
Para recuperar o bem-estar, sente que precisa voltar às lojas."
Será que eu sou um
consumidor que perco o controle?
Descubra se você tende a ser um consumidor compulsivo
1. Você sempre cede à tentação de comprar algo?
2. Já escondeu as compras para ninguém saber que torrou seu
dinheiro?
3. Já comprou algo desnecessário só por causa de um desconto
"imperdível"?
4. Costuma se perguntar por que comprou isso ou aquilo?
5. Cai para trás com as dívidas no final do mês?
6. Já perdeu uma viagem dos sonhos porque se descontrolou nas
compras?
7. Pede dinheiro emprestado para compensar as loucuras consumistas?
8. Sente prazer em comprar, mesmo que não precise de nada?
9. Tem um monte de roupas que nunca usou ou que usou muito pouco?
10. Já acumulou dívidas cinco vezes maiores que o seu salário?
Cada resposta afirmativa vale 1 ponto. Quantos você marcou?
De 8 a 10: Você pode precisar de ajuda de um especialista para
aprender a se controlar.
De 5 a 7: Você gasta além da conta. Cuide-se para não perder a
direção.
De 3 a 4: Você adora fazer uma boa compra, sempre que possível.
De 1 a 2: Você controla seus gastos, mesmo ficando na vontade.
Para recuperar o controle como eu faço?
Estas dicas podem ajudar quem costuma fugir dos problemas consumindo
sem parar:
1. Perceba e assuma que você está deprimido ou tem algum problema
precisando ser encarado.
2. Peça a alguém de confiança que cuide da sua conta bancária.
3. Saia de casa sem talão de cheques e sem cartão de crédito. Leve
apenas o dinheiro necessário para a condução e a alimentação.
4. Não entre em shoppings de jeito nenhum!
5. Pare de pedir dinheiro emprestado a bancos, amigos ou parentes.
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